Os Tincoãs - Discografia


Cachoeira: As Origens

Fundada em 1531 e elevada à categoria de cidade em 1873, a vila de Cachoeira representa um ponto geográfico importante, e constitui-se em uma forte referência para a história, a identidade e a cultura baianas.

Preservando sua identidade cultural ao longo dos anos, os habitantes de Cachoeira não apagaram da memória costumes e traços culturais dos africanos e afrodescendentes que pisaram seu solo, cultivando a diversidade, a riqueza do saber popular, o sincretismo religioso, essa engenhosa maneira encontrada pelo povo negro para, realizando diversas trocas simbólicas, manter vivas suas crenças e formas de expressão. Fortes evidências de continuidade encontram-se, sem dúvida, na música e na linguagem oral característica dos cultos afro-brasileiros.

Formado desde o final da década de 1950 e inícios da década de 1960, um grupo musical cachoeirano iria, na década de 1970, promover uma transfiguração da música religiosa afro-brasileira em uma forma nova de arte, incorporando à música popular brasileira um jeito diferente de interpretar cantigas de orixás e sambas de roda, caracterizado pelo uso das harmonias vocais e de um instrumental enxuto, mas eloquente. Eles já encontraram os caminhos abertos por Caymmi, Baden-Vinicius e alguns outros baluartes da nossa música.

O trabalho musical dos Tincoãs é único,  autorreferenciado. Da influência dos famosos trios vocais que interpretavam canções e boleros, pouco permaneceu. A música de raiz, o legado musical popular da região do recôncavo baiano seriam a tônica e a dominante na nova linguagem que realizaram. Dadinho e Mateus Aleluia foram os compositores mais frequentes nas suas gravações, que registram também um número considerável de adaptações de música tradicional elaboradas por eles, incluindo canções coletadas em Angola, na última fase do grupo.


Os Primeiros Tincoãs

No início da década de 1960, na cidade baiana de Cachoeira, os jovens Erivaldo, Eraldo e Dadinho formavam mais um trio de vocalistas, entre os muitos que, seguindo a receita do famoso Trio Los Panchos, alimentavam o ideal de cantar, gravar discos, e fazer sucesso no rádio e no cinema.

Timbau, maracas e um violão constituíam o instrumental de suporte para o trabalho vocal dos rapazes. O nome peculiar dado ao trio, aliás bastante apropriado, foi tomado de empréstimo a uma das tantas espécies de pássaros canoros encontrados no Brasil: Os Tincoãs.

Filhos de cantores, os três já gorjeiavam desde meninos, fosse nos terreiros de candomblé, (Dadinho pertencia à Roça do Ventura) nos bailes, nos corais de igrejas ou mesmo no bar O Sucesso, recanto de propriedade de Dadinho, que ficava na parte térrea do sobradão da Família Arlindo Estrela, bem na esquina entre as ruas Ana Nery e 25 de Junho.

Dadinho, especialmente, dedicou-se com afinco à carreira de cantor, tendo participado da formação do Trio Caçula, com Didi da Bahiana e Ulisses Damião, (Mião, depois substituído por Wandecock) sempre acompanhado de perto por Erivaldo Brito, o Tincoã que preferiu retornar ao ninho.

Dadinho foi também um dos crooners  da orquestra Porto e seu Conjunto. Observando vídeos de suas performances, percebe-se mais uma de suas habilidades, na qualidade técnica da sua execução do violão.

Em 1960, Os Tincoãs estreavam em programas de televisão, obtendo a primeira classificação no Programa Escada para o Sucesso, realizado pela TV Itapoan, em Salvador. Nessa época, seu repertório era constituído essencialmente de boleros, o gênero mais ouvido na época, inclusive em Cachoeira, no bem frequentado bar O Sucesso.


1960-1963 – Formação Inicial: Erivaldo, Heraldo e Dadinho

Algumas informações e fotos disponibilizadas nas publicações de Erivaldo Brito e Cacau Nascimento em blogs que enfocam a cidade de Cachoeira são valiosas para a reconstituição da história dos Tincoãs.

Erivaldo, cachoeirano, filho de Ester e de Jessé, foi um dos integrantes da primeira formação do trio, e primeiro a deixar o conjunto, por opção, dando outro rumo à sua vida pessoal. Podemos identificá-lo através de fotos antigas postadas por ele, com o pequeno timbau ao lado de Dadinho (violão) e Heraldo (maracas).

"Quando Os Tincoãs foram gravar o seu primeiro disco, - em agosto próximo fazem 50 anos! -, fiz uma escolha pessoal para inclusão de uma música cuja letra havia me tocado. Dadinho preocupava-se tão somente com a beleza melódica, não atinava para o que estava dizendo. O bolero gravado chama-se “Solidão” e diz o seguinte: “Solidão... E isso apenas quer dizer, que o meu ser só, é um só de sem você, que é muito mais só, e bem diferente do só de toda gente quando está só!“ Foi a faixa menos tocada do elepê “Meu Último Bolero” e não saiu qualquer comentário crítico." (Erivaldo Brito, 07/07/2011)

 

1961/1962: LP Meu Último Bolero

De Cachoeira para a Baía, (como era chamada a cidade do Salvador) e em seguida para o Rio de Janeiro. Essa foi a trajetória seguida pelos rapazes até a gravação do seu primeiro LP. O canto em falsete de Dadinho, trançado com os vocais de Eraldo e Erivaldo, seria enriquecido com a brilhante participação dos instrumentistas Waldir Azevedo (cavaquinho) e José Roberto Keller (teclados).

Mas a fase de ouro dos boleros estava findando. Logo viriam novos movimentos musicais e o estilo de repertório praticado pelo trio até então, não mais alcançaria o sucesso tão esperado.


1963-1975 – Segunda Formação: Heraldo, Dadinho e Mateus Aleluia

A partir de 1972, nova investida do grupo, já sem a participação de Erivaldo, que se desligara do grupo desde 1963, permanecendo em Cachoeira. No lugar de Erivaldo, Mateus Aleluia Lima.

Voltavam para o Rio de Janeiro, e introduziam um novo conceito musical, ainda não explorado na música popular brasileira: os arranjos vocais para cantigas provenientes dos rituais religiosos afro-brasileiros e sambas de roda, tão presentes e tão marcantes na terra de origem dos componentes do conjunto.

É outro cachoeirano, amigo do ex-Tincoã Erivaldo, quem conta um pouco do processo de elaboração da nova linguagem musical do trio, que deixava para trás os boleros, bebendo das fontes mais puras e valorizando a cultura musical de raiz:

[...] "Dona Zuleide da Paixão, conhecida como Ledinha, [Dona Ledinha de Yansã] iyalorixá do terreiro Loba Nekun Filho, localizado no Alto do Monte, arrumava seu tabuleiro de acarajé na esquina do Bar O Sucesso, de Dadinho, onde atualmente funciona o retaurante Rabuni, na Praça 25 de Junho."  [...]

"Foi nessa época que Mateus Aleluia, Dadinho e Eraldo pesquisavam músicas de candomblé para gravar o LP do Tincoãs, que inseriria a cantiga de orixás em lugar destacado da música popular brasileira. Enquanto comiam acarajés, os três tincoãs cachoeiranos ouviam e gravavam em fitas-cassete D. Ledinha cantar cantigas do candomblé do terreiro de Dona Lira, sua mãe de santo adotiva. "Sou de Nanã, ê uá..." "Deus nos salve, aldeia..."  "Na Beira do mar, salvarei Yemanjá..."  Em 1971, os três meninos foram para o Rio de Janeiro encontrar Adelzon Alves e outros produtores. Gravaram. O Sucesso havia se consolidado. Dali da esquina e junto ao tabuleiro de acarajé de Dona Ledinha, filha de Cabocão do Açougue e de Yansã, os canoros  tincoãs voariam mundo afora. Para o bem de nossa música. Com as bênçãos de Iyemanjá."

(Luiz Cláudio Dias do Nascimento, 21/03/2010)


Em 1973 gravam o segundo LP, o antológico Os Tincoãs, que foi produzido por Adelzon Alves. Mateus e Dadinho assinam a maioria das composições, sob a produção musical do maestro Lindolfo Gaya. 


1975 – Terceira Formação: Dadinho, Mateus Aleluia e Morais

Em 1975 a morte prematura de Heraldo surpreende os Tincoãs. Eles haviam acabado de gravar a faixa Banzo, para a trilha sonora da novela Escrava Isaura.

Para manter a formação de trio, entra Morais, que não permaneceu por muito tempo, mas participou do terceiro LP, O Africanto dos Tincoãs, editado em 1975. Logo, Badu será o próximo vocalista incorporado ao grupo, que a essa altura já se tornara um grande sucesso.

 

1976-1984 – Quarta Formação: Dadinho, Mateus Aleluia e Badu

Da Bahia para Angola

Em 1983 Os Tincoãs seguem para Luanda, estabelecendo-se em Angola. Agora, Os Tincoãs alçavam seu vôo às distantes terras de Angola, permanecendo por muitos anos naquele país, trilhando uma espécie de caminho inverso das origens afro, um refluxo da influência da música e da diáspora africana presente no seu cantar. Lá, iriam afirmar definitivamente o seu trabalho.

 O grande Dadinho faleceria na África e o público brasileiro ouviria com saudade os discos gravados pelo trio cachoeirano.

Em 1984 Badu desliga-se do grupo, Mateus e Dadinho permanecem compondo e cantando em dupla.

Em 1986 Os Tincoãs lançam o álbum Mateus e Dadinho.

"Os TINCOÃS, após muitos anos de trabalho levantando os cantos africanos originais, preservados no Recôncavo da Bahia, desde os primórdios da escravidão, finalmente foram à Angola, onde o trabalho que realizam teve uma grande repercussão, perante o povo e intelectualidade.
Os angolanos, seu país, suas lutas etc., levaram os TINCOÃS, (Dadinho e Mateus) a criarem esse trabalho, que mais uma vez depois de tantos e tantos outros exemplos, como o nosso samba e tudo de nossa maravilhosa cultura negra, é uma prova inequívoca dos profundos laços e sentimentos que nos unem aos nossos irmãos da África, no passado, no presente e no futuro."
(texto por Adelzon Alves)

Em 2000, com a morte de Dadinho, se encerra o ciclo das produções, gravações e apresentações musicais em conjunto. Mas não seria o fim da saga dos Tincoãs. Mateus Aleluia ainda tem muitas histórias para contar. (Texto: Roberto Luis do blog Tempo Música. )


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Discografia

 

Meu Último Bolero (1961)

01. Viagem Ao Infinito
02. Meu Último Bolero
03. Lua De Mel Em Porto Rico
04. Jurame
05. Sem Ninguém
06. Tu Me Acostumaste
07. Serenata
08. Adeus, Amor
09. Amargo Regresso
10. Dolores
11. Sobre O Arco-Íris
12. Sabe Deus

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Os Tincoãs (1973)

01. Deixa a Gira Girá
02. Yansã, Mãe Virgem
03. Sabiá Roxa
04. Ogundê
05. Na Beira Do Mar
06. Rapôsa e Guará
07. Saudação Aos Orixás
08. Canto Prá Iemanjá
09. Capela D'Ajuda
10. Obaluaê
11. A Força da Jurema
12. Embola Embola

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O Africanto dos Tincoãs (1975)

01. Promessa Ao Gantois
02. Dora
03. Salmo
04. Homem Nagô
05. Canto E Danço Prá Curar
06. Sereia
07. Jó
08. Oxóssi Te Chama
09. Anita
10. Ogum Pai

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Banzo / Jó (1976) [Compacto]

01. Banzo
02. Jó

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Os Tincoãs (1977)

01. Atabaque Chora
02. Lamentos Às Águas
03. Canto de Dor
04. Chão da Verdade
05. Romaria
06. Deixa A Baiana Sambar
07. Canto do Boiadeiro
08. Enterro da Iyalorixá
09. Chapeuzinho Vermelho
10. Arrasta A Cadeira
11. Cordeiro de Nanã
12. Acará

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Os Tincoãs (1982) [Compacto]

01. Ajagunã
02 Chorojô

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Dadinho e Mateus (1986)

01. Luanda Ê "Lembrança feliz"
02. Angola Vamos Cantar
03. África Blue
04. Quem Vem Lá
05. Flor Do Campo
06. Vovó Clementina
07. Rio QG Do Samba
08. Muxima
09. Cachoeira (Bahia Lisboa)
10. Namíbia
11. Sou Eu Bahia
12. Óia Lá Muié

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